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Brasil acima de tudo: uma piada da contemporaneidade.






- Tuuuuuuuu, tuuuuuuuu, tuuuuuuu... ; alô!
- Boa noite! É do Ministério Público?
- Sim, senhor!
- Ok. Meu nome é Matheus Patrick, e eu gostaria de fazer uma denúncia.
- Pois não, senhor. O que deseja denunciar?
- Vocês já ouviram falar do termo "Stalker"?
- Isso é alemão, senhor?
- Não, é anglo-saxônico, derivado do bretão!
- Onde é isso, senhor!
- Deixa pra lá! Chamam de idioma inglês agora. Enfim..
- Continuo aguardando sua denúncia, senhor!
- Então, "stalker" é o que chamamos por aqui de assediador, perseguidor, cerceador, aquele que se alimenta de constranger a liberdade alheia...
- Senhor, pra que ser tão prolixo? Aqui na Bahia nós chamamos isso de "vacilão" ou "pau no cu"!
- Nossa, como aqui na Bahia as coisas são maravilhosamente sintéticas!
- Senhor, o senhor é gay?
- Não! Mas isso importa?
- É que o senhor usa uns termos afetados que, ou é coisa de bicha, de burguês, ou de bicha burguesa (leia esse trecho com a voz do Bolsonaro, ecoando em sua cabeça). Enfim, voltemos então à denúncia...
- Então...! Tem um meliante...
- Seja mais simples, senhor !
- Desculpa! Tem um vacilão, que trabalha nas milícias legitimadas pelo Estado...
- O senhor quis dizer "polícia"?
- Sim! Não! Depende de onde se mora, essa resposta pode custar caro... Rs.
- Então, esse rapaz, esse bom sujeito mantenedor da ordem (por meio de balas de borracha), esse defensor dos sagrados valores da família e dos bons costumes, anda me perseguindo nas redes, buscando em qualquer página do mundo em que eu comente, só pra me encher o saco!
- Qual é o nome dele, senhor?
- Tardelly Pinho, senhora!
- Qual é a orientação política dele, senhor?
- Senhora, pelo que parece, ele vota no Capitão (cangaceiro?)!
- Desculpa, senhor. Não poderemos lhe ajudar. Obrigado por sua ligação. Brasil acima de tudo ; deus acima de todos!


Tu, tu, tu, tu, tu, tu...


* Os termos associados à Polícia que aparecem no diálogo não representam - em sua totalidade - a minha perspectiva sobre esta instituição governamental, e foi usada somente para ilustrar uma piada interna recorrente entre nós.


** Esse texto foi uma brincadeira com um amigo, eleitor de Bolsonaro, e obviamente o marquei na época da publicação.

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Carpe Diem

Vem, amanhã pode ser tarde, Talvez não tenhas chance, E o tempo lhe alcance Sem que seja oportuno Olhar nos olhos de quem lhe arde o peito E enrubesce as maçãs de seu rosto, E que cala o discurso mais ensaiado. Vem, pois este “hoje” é o dia De que ainda tens a garantia de colher Os frutos do amor que alimenta seu ânimo; E que à noite vela teu sono Semenado nos teus sonhos O desejo secreto de muitos “amanhãs”. Vem, quando se ama o tempo pára, O instante é o “sempre agora” E o amanhã uma distante maldade.   Este é o convite que lhe faço: - Hoje, revele teu coração, Pois se amanhã já não formos Seremos na eternidade.

A cafajestagem do "artista-político": breves notas.

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